“Então é Natal, a festa cristã, o velho e o novo…” Aliás, novo é o que não há no Natal, ainda mais quando a área analisada é a música natalina. Não há época do ano em que os clichês mais se repetem por um “espírito natalino” piegas, pois só é lembrado no Natal, quando na verdade deveria ser lembrado o ano todo. Mas se assim fosse, não seria “espírito natalino”.
Então, me lembro daquele velho vinil (é o novo) do vovô. Na capa, várias bolas de colocar nas árvores de natal e um velho graveto de pinheiro solto entre elas. No conteúdo do velho LP estavam as mesmas músicas que hoje povoam as propagandas de lojas de eletrodomésticos, roupas e produtos que podem ser parcelados até o próximo Natal.
É verdade que essas músicas só tocam nesta época. E ainda bem. Não há quem agüente mais do que 1 mês ouvindo. “Noite Feliz”, “Jiggle Bells” e “Pinheirinhos” são os hits que todo dezembro comandam as paradas de sucesso. Mas se você pensa que não há algo pior está enganado. Muito pior do que ser um pacato cidadão é ser coralista. Os cantores de coral em dezembro só faltam entrar em pane total e procurar um psiquiatra. As canções de Mozart, Bach e Villa-Lobos dão lugar a músicas que dizem “Pinheirinhos, que alegria, tra lá lá lá lá lá lá lá lá / Sinos tocam, noite e dia, tra lá lá lá lá lá lá lá lá”. É como se todo um levantamento de repertório durante o ano perdesse o valor. Não é à toa que muitos corais têm o seu contingente diminuído significativamente depois do Natal.
A versão da música de Elton John, gravada pela cantora Simone, é realmente uma das mais estranhas. Por outro lado, sua melodia cumpre a função, gruda no ouvido como chiclete e quando você menos percebe já está cantarolando.
Há uns 3 anos, Ivan Lins apareceu com uma inovação que em 3 dias ficou tão enjoativa quanto as outras, porque tocou demais. A música tinha uma levada latina, meio salsa cantada em espanhol, e dizia “Feliz Natividad”, ou seja, “E um feliz Natal” … “e um ano novo também” … Ahhhh!! Tá vendo, já estou eu cantarolando a versão da Simone.
Isso quer dizer que nenhum artista inova na época de Natal? Não é verdade. A cantora Diana Krall lançou em dezembro o álbum “Christmas Songs”, com 12 hits de natalinos. Com arranjos jazzísticos, Diana Krall e seu fantástico time de músicos fez o que parecia impossível: deixar as canções de Natal com um tom suave e agradável. Conclusão, o CD está vendendo mais do que brinquedinho de amigo secreto de 1,99. Dizem até que o Papai Noel está pirateando os CDs para suprir os pedidos de cartinhas que recebe dizendo: “PAPAI NOEL! POR FAVOR, ME DÊ O CD DA DIANA KRALL, PORQUE EU NÃO AGUENTO MAIS A SIMONE!”
“Então é Natal” e nesta época devemos comprar presentes, devemos mesmo, e como devemos. É muita dívida. Portanto, uma boa dica de presente é um CD da Diana Krall, que custa hoje R$ 45. Se você não tiver esse dinheiro todo, faça como eu. Recorra as prateleiras de cds do Extra! Tem Chico Buarque por R$ 9,99.
Se você agüentou o meu desabafo até aqui, parabéns! Tenha um Feliz Natal, mas prometa a si mesmo que dia 31 de dezembro você não vai cantar “Adeus ano velho / feliz ano novo / que tudo se realize / no ano que vai nascer / muito dinheiro no bolso / saúde pra dar e vender…”
Nota: Esta matéria era para ter sido veiculada no mês de dezembro, mas como o Leo estava em Pipa-RN e as matérias têm que ser enviadas juntas, não foi possível. Valeu Leo!
